A fachada simples coleciona momentos. Foi ponto de encontro e virou patrimônio. A banquinha de revistas funcionou por mais de meio século e, nesse período, viu a cidade crescer e se desenvolver… ir das casas de madeira aos prédios com inúmeros andares, que foram preenchendo o quadrilátero central.
A região pujante ia ganhando forma, e era ali que os moradores se informavam. O pessoal almoçava no restaurante de mesmo nome e passava na Banca Rodeio para levar um jornal ou uma revista para casa. Mas, nessa parada, o bate-papo descontraído fazia parte da rotina. Era gente chegando, gente partindo. A todo momento. E a história – da cidade e das pessoas – ia sendo feita nessa troca de experiências.
O seo Emílio Rodrigues é personagem vivo dessa transformação. O aposentado de 99 anos é português de nascença, mas londrinense de coração. Cresceu junto com a cidade e sempre viveu na área central.
Encontramos o pioneiro passando pela Banca Rodeio, na esquina da Alameda Miguel Blasi com rua Professor João Cândido, acompanhado da filha, Cristina. Enquanto encarava as portas fechadas, seo Emílio se lembrou de quando, na década de 1950, precisava sair de casa, na rua Belo Horizonte, e ir até a praça Willie Davids, onde funcionou o primeiro terminal rodoviário da cidade, para comprar jornal.
Mas não demorou muito para as bancas ganharem a região. Até a década de 1990, eram pelo menos oito no centro, garante o pioneiro. Mas, com o advento da era digital, os espaços foram morrendo. Um por um. A única que resistia era a Rodeio, mas a história dela também chegou ao fim.
Criada pelo pai no centro de Londrina, Cristina também lamentou o fechamento do espaço tradicional. A Banca Rodeio funcionou sempre no mesmo endereço. Em 1992, passou a ser administrada por Carlos Alberto de Souza, o Carlão, que veio do Rio de Janeiro para assumir o negócio da família e ficou à frente das atividades até 2022, quando morreu em decorrência de uma infecção intestinal.
Nos últimos anos, a banca foi gerenciada pela companheira de Carlão, que precisou se reinventar para continuar de portas abertas. Além dos jornais e revistas, cada vez mais escassos, o local vendia créditos para celular e cigarros, além de guloseimas e isqueiros. O aposentado Lázaro Frisselli, de 73 anos, ainda não acredita que a história do espaço chegou ao fim. Como última memória, ele recorda da meninada que, durante a Copa do Mundo de 2022, frequentava a banca para comprar figurinhas.
A banca funcionou até o último sábado (25) e na segunda (27) já não abriu mais as portas. Os motivos para o fechamento ainda não foram totalmente esclarecidos. O ponto seria particular, de propriedade de um condomínio, que teria pedido para que o local fosse desocupado.
Mas, independentemente do que causou o fechamento, quem passou as últimas décadas frequentando o espaço, caso dos aposentados Paulo Gales e Marco Antônio Amaro, vai precisar se acostumar com o vazio deixado pelas portas que nunca mais se abrirão.
Fonte: CBN Londrina – Por Guilherme Batista

