A presença de Dorigheli reforça a relevância cultural do município no cenário artístico contemporâneo
A presença de Dorigheli na primeira edição da revista Criaturas Efímeras, fortalece o eixo cultural entre o Brasil e a Europa, ao reafirmar o posicionamento da arte queer em circulação internacional. O artista apresenta obras inéditas da série ´´Surreal: entre o lúdico e o sensual“, divulgadas com exclusividade no lançamento da publicação em Madri, na Espanha. As peças também integram sua próxima exposição, e promovem o alcance da sua produção emergente no cenário contemporâneo.
Veja a versão digital da revista Criaturas Efímeras
Dorigheli ocupa o lugar do ponto de inflexão ao inaugurar a presença brasileira no projeto, onde a identidade, memória e dissidência se entrelaçam em camadas de imagem, silêncio e gesto.
Além do brasileiro, artistas da Rússia, México, Colômbia, Espanha, Chile, Argentina e Peru compõem a revista idealizada pelo multiartista mexicano Joaquín Rosas Pérez.
“Desde a infância, a minha relação com o desenho e o lúdico evoluíram e se fragmentaram. Hoje, o sensual é uma proposta complementar às experiências da minha vida. Eu não tenho o intuito de chocar. Mas o corpo é uma referência.
Nos despimos diariamente. Precisamos nos acostumar, enquanto sociedade, a desmistificar a sexualização do corpo e ressignificar as fronteiras corpóreas”, provoca o artista.
É nesse horizonte que Dorigheli anuncia a série ´´Surreal: entre o lúdico e o sensual“, um conjunto de obras que tensiona as fronteiras entre corpo, desejo e imaginação por meio de colagens e bordados que se entrelaçam como camadas de memória e ficção.
“O bordado está na minha vida desde sempre. Principalmente por um viés da feminilidade e dos estereótipos que atravessam essa relação. Porém, eu faço a ruptura desse rotineiro. Existe outra vertente. A linha contorna um corpo e propõe outras ressignificações. Assim como a colagem, que possibilita a desconstrução imagética e a reinvenção a partir dessas junções híbridas”, conceitua.
A série ´´Surreal: entre o lúdico e o sensual“ emerge como um território híbrido, onde o lúdico se converte em provocação e o sensual se desloca para além da representação tradicional, abrindo espaço para corporalidades dissonantes, fragmentadas e expansivas.
As composições, construídas a partir de recortes, sobreposições e intervenções têxteis, instauram um jogo visual que desafia leituras lineares.
“Eu quero provocar desejo, agitação, pensamentos e novos olhares. A arte atual clama por isso. A minha descoberta não se encerra, é diária. Existem diversas tentativas e adaptações em dez anos desses processos artísticos”, pondera Dorigheli.
Em uma década de carreira artística, Dorigheli celebra em sua trajetória diversas realidades confessionais em sua pesquisa autodesnudada. “O preconceito ainda é instrumento de segregação. Me identifico como uma pessoa gay e artista desde sempre”.
Para ele, a arte e as diversas estéticas incorporadas em seus 40 anos de vida, são reflexos de pesquisas e do consumo cultural diário. Suas composições refletem um fundamento sobre esses movimentos.
Por outro lado, em ´´Surreal: entre o lúdico e o sensual“ as obras promovem ideias além da rotina, dos corpos e das orientações. Principalmente no cenário queer e na ideia do que é sensual.
Sua participação na revista reafirma a arte queer como linguagem plural que reorganiza o mundo como território de invenção e resistência. A escolha de Dorigheli pela equipe editorial de Criaturas Efímeras revela o reconhecimento da densidade de sua pesquisa visual.
“Desde a minha estreia nacional para o público e a imprensa com a exposição ´Fragmentos e Fios – A Costura da Memória e do Silêncio`, em 2025, poder integrar uma publicação internacional, com artistas de diversas regiões do mundo, vai de encontro com o propósito da minha trajetória e das minhas obras. Estar na primeira edição é gratificante. Principalmente pelo intercâmbio que a revista proporciona com outros movimentos culturais e repertórios artísticos”, democratiza.
Criaturas Efímeras nasce da iniciativa de Joaquín Rosas Pérez, artista cênico, coreógrafo e criador visual nascido em Tijuana, no México, reconhecido também por sua atuação como bailarino em companhias como Cuarto Fractal (México), o Ballet de Cámara de Madrid e a Fundación Alicia Alonso, ambas na Espanha.
Após a convocatória internacional para selecionar artistas de diferentes áreas, em colaboração com o Instituto Universitário de Dança Alicia Alonso, em Madri, o projeto reúne mais de 15 artistas para consolidar uma plataforma global de difusão, comunicação e conexão artística, orientada pela sensibilização cultural e pelo fortalecimento do diálogo entre criadoras e criadores contemporâneos.
“Somos uma coisa rara e meio à parte. Somos meras criaturas que se escapam entre as pessoas e, sem querer, dizem uma coisa ou outra que tem sentido, mas que ao final acaba se perdendo. Porque, indubitavelmente, colocamos um punhado de alma em cada criação”, reflete o editor da frevista Criaturas Efímeras, Joaquín Rosas Pérez.
Além de Dorigheli, a revista reúne as artes de Ekaterina Novikova (Rússia); José Guzmán e Fausto Jijón (México); Dora Viviana Rodríguez (México); Marycelo Rodríguez (México); Adrián Dodelly (México); Ferroco (México); Gabi Coêlho (Brasil); Sara Gómez e Daniela Roero (Espanha); René Serrano (México); Sarah Aillon (Chile); Yadira Martínez (México); Erica Ferreyra (Argentina); Sara Rodríguez (Espanha); Sarita Florencia Sepúlveda (Chile); Santiago Hurtado (Colômbia); Sergio Bretel (Peru) e Penny Di Roma (Argentina).
Artista visual LGBTQIAPN+, natural de Assis, no interior de São Paulo e residente no Paraná há mais de três décadas, Dorigheli costura suas artes gráficas, ao transitar pelo bordado, colagem, ilustração e aquarela para construir narrativas que confrontam o tradicional. Sua prática desenvolvida ao longo de dez anos, caracteriza-se pela experimentação contínua e pela busca orgânica de novas articulações entre a técnica, o conceito e a transmutação.


